14 novembro, 2016

Sobre perdas, escolhas e clips

Tive um namorado que me falou que se você encontrasse um clips no chão (na rua, não pode ser no trabalho, nem dentro de casa) era alguém que te amava. Se você não juntasse estava renegando esse amor – detalhe, se tratava da primeira pessoa que você pensava!

Pois é, sou dessas, meio idiota, que se comovem com histórias de amor. Desde então, virei a “louca dos clips”. Os mais chegados, quando estou de aniversário, me dão presente e um clips, para mostrar o quanto gostam de mim. Há quem diga que se contaminou com esta doença.

Bom, o fato é que, eu acreditei nessa história. Um dia na parada com uma amiga, esperando o ônibus para ir para casa, olhei para o chão e enxerguei um clips redondinho nas pontas e dourado (primeira vez que vejo um assim). Peguei do chão e disse: - Flor, vai acontecer algo especial. No dia seguinte, meu pai faleceu. Um homem que preferiu se vestir de orgulho. Com ele, me deparei com a primeira escolha que tive que fazer. Permanecer em uma relação onde o ódio que ele sentia com a separação era maior que o amor que ele sentia pelas filhas, eu ainda era o único elo dele com a família. Mas por causa desta vaidade, ficamos 18 anos sem contato em vida.

No cemitério, ao lado do caixão, olhando seu rosto, seu corpinho pequeno, tinha a impressão que ele era tão diferente, sim eu era uma garotinha, mas, percebi ali a minha perda de memória, como alguém que eu amava tanto e que mudou o rumo das nossas vidas era tão diferente do que eu lembrava. Escutando o relato de amigos dele, vários nos diziam o quanto ele se culpava, o quanto falava de nós e o quanto não tinha coragem de procurar as filhas. O texto é sobre escolhas também pessoal.

Resolvi passar por cima de toda a história que criei 18 anos atrás e perdoei. Fiz toda a passagem espiritual dele, expliquei que ele estava em um hospital recebendo cuidados, que eu havia perdoado ele de todo o sofrimento que me causou, e que por conta das escolhas dele, gostava da pessoa que tinha me tornado. Peguei o clips que achei e coloquei na camisa que estava usando, como se eu dissesse EU TE AMO!

O que aprendi com tudo isso e tenho tentando a duras penas evitar de fazer novamente, ter orgulho. Saio de todas as relações com o outro de cabeça erguida, com a certeza que tentei o que podia e o que me permitia naquele momento. Também, aprendi a não viver de migalhas e de falsas esperanças. O amor não tem a ver com mendigar e sim com cuidado, lealdade e reciprocidade.  Por fim, eu cito o poeta Vinicius de Moraes “a vida é arte do encontro. Embora haja tanto desencontro pela vida”.

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